segunda-feira, 23 de abril de 2012

Tem ganso na Feira

Leviatã - Obra de Anish Kapoor
Grand Palais - Paris

Tem ganso na Feira


A polêmica envolvendo o vultoso cachê de 170 mil reais pago ao rapper Gabriel Pensador pelo posto de patrono da 27ª Feira do Livro de Bento Gonçalves serve como pano de fundo para uma reflexão que extrapola aquilo que deveria ser o cerne de uma feira do livro: o envolvimento comunitário em torno da valorização do livro, da leitura, da literatura.

Acompanhei como leitor algumas edições da Feira do Livro de Bento Gonçalves e sou testemunha do crescimento qualitativo do evento num circuito regional. Por duas vezes, inclusive, atuei na elaboração do projeto de captação de recursos da feira, o que deixava claro que era preciso saber manejar o pouco orçamento disponível entre todas as atividades que demandavam pagamento, sobretudo o cachê de artistas e escritores, até então sempre modestos e dentro de uma realidade tolerável.

Inúmeros escritores de projeção nacional – e outros pensadores – já passaram pela Feira do Livro de Bento Gonçalves e ajudaram a construir a história deste evento. Mais do que uma oportunidade financeira e de lucratividade, tenho a certeza de que todos eles percebiam na feira uma oportunidade de divulgação do seu trabalho e um momento de partilha de saberes sobre a arte da literatura.

Até onde sei, Ignácio de Loyola Brandão não levou o equivalente a seis carros populares em cachê por sua participação, tampouco Affonso Romano de Sant’Anna comprou um apartamento de quarto e sala por suas palestras sempre brilhantes. Mas quando uma Feira do Livro perde este foco, o de ser um saboroso banquete literário, para tornar-se uma vitrine político-partidária e um brinquedinho nas mãos de gente egoísta, ela corre o risco de imiscuir-se à promiscuidade do jogo político e financeiro. Eis o que está em questão aqui.

Tenho acompanhado algumas manifestações sobre o assunto na imprensa e acho que os respingos de insatisfação e indignação são plenamente justificáveis. Carpinejar deu o seu recado e, inteligentemente, cancelou sua participação. Um grupo de escritores locais também articula uma manifestação de repúdio. Ao tentar rebater algumas críticas, Gabriel Pensador diz que seu cachê não é tão alto se comparado ao do cantor Latino, que ganha o dobro dos 170 mil para fazer um show. Talvez faltou Gabriel Pensador olhar um mapa para ver que Bento Gonçalves não está entre Rio e São Paulo e que a Feira do Livro não é o Credicard Hall. Creio que, ao enfocarem um evento literário, essas comparações sobre cachês deveriam nos privar do confronto entre loiras burras e festas no apê.

Parece que a vaidade da atual administração municipal impediu que se tomasse uma medida mais prudente em relação à escolha do patrono da 27ª Feira do Livro de Bento Gonçalves, já que, a exemplo das mais arcaicas decisões coronelistas, foi o prefeito, e unicamente ele, que decidiu quem seria o patrono da feira. Num âmbito que se poderia considerar profissional, tais decisões são coletivas, mediadas por escritores, intelectuais, bibliófilos, pesquisadores do campo literário e gente que entende do assunto, além de levarem em conta critérios bem específicos: a qualidade da obra do patrono, a homenagem por uma vida de dedicação à arte da escrita, a reverência pela construção de um pensamento estético influente para uma cidade, uma região ou um país. Estes critérios soam bastante adequados ao escritor José Clemente Pozenatto, que, de forma deselegante e rasteira, passou a figurar no debate como uma carta fora do baralho, como alguém que era “inviável” por não ter apelo na mídia, não ter uma imagem comercializável e não apresentar-se no Domingão do Faustão.

A celeuma está armada. Quem perde com isso é a própria Feira do Livro de Bento Gonçalves, que dá sinais de ter se tornado refém da indústria do espetáculo. Paradoxalmente, a 27ª Feira do Livro de Bento Gonçalves confirma que a imagem vale mais do que a palavra.

Jaguarão-RS, 23/04/2012

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