segunda-feira, 23 de abril de 2012

Tem ganso na Feira

Leviatã - Obra de Anish Kapoor
Grand Palais - Paris

Tem ganso na Feira


A polêmica envolvendo o vultoso cachê de 170 mil reais pago ao rapper Gabriel Pensador pelo posto de patrono da 27ª Feira do Livro de Bento Gonçalves serve como pano de fundo para uma reflexão que extrapola aquilo que deveria ser o cerne de uma feira do livro: o envolvimento comunitário em torno da valorização do livro, da leitura, da literatura.

Acompanhei como leitor algumas edições da Feira do Livro de Bento Gonçalves e sou testemunha do crescimento qualitativo do evento num circuito regional. Por duas vezes, inclusive, atuei na elaboração do projeto de captação de recursos da feira, o que deixava claro que era preciso saber manejar o pouco orçamento disponível entre todas as atividades que demandavam pagamento, sobretudo o cachê de artistas e escritores, até então sempre modestos e dentro de uma realidade tolerável.

Inúmeros escritores de projeção nacional – e outros pensadores – já passaram pela Feira do Livro de Bento Gonçalves e ajudaram a construir a história deste evento. Mais do que uma oportunidade financeira e de lucratividade, tenho a certeza de que todos eles percebiam na feira uma oportunidade de divulgação do seu trabalho e um momento de partilha de saberes sobre a arte da literatura.

Até onde sei, Ignácio de Loyola Brandão não levou o equivalente a seis carros populares em cachê por sua participação, tampouco Affonso Romano de Sant’Anna comprou um apartamento de quarto e sala por suas palestras sempre brilhantes. Mas quando uma Feira do Livro perde este foco, o de ser um saboroso banquete literário, para tornar-se uma vitrine político-partidária e um brinquedinho nas mãos de gente egoísta, ela corre o risco de imiscuir-se à promiscuidade do jogo político e financeiro. Eis o que está em questão aqui.

Tenho acompanhado algumas manifestações sobre o assunto na imprensa e acho que os respingos de insatisfação e indignação são plenamente justificáveis. Carpinejar deu o seu recado e, inteligentemente, cancelou sua participação. Um grupo de escritores locais também articula uma manifestação de repúdio. Ao tentar rebater algumas críticas, Gabriel Pensador diz que seu cachê não é tão alto se comparado ao do cantor Latino, que ganha o dobro dos 170 mil para fazer um show. Talvez faltou Gabriel Pensador olhar um mapa para ver que Bento Gonçalves não está entre Rio e São Paulo e que a Feira do Livro não é o Credicard Hall. Creio que, ao enfocarem um evento literário, essas comparações sobre cachês deveriam nos privar do confronto entre loiras burras e festas no apê.

Parece que a vaidade da atual administração municipal impediu que se tomasse uma medida mais prudente em relação à escolha do patrono da 27ª Feira do Livro de Bento Gonçalves, já que, a exemplo das mais arcaicas decisões coronelistas, foi o prefeito, e unicamente ele, que decidiu quem seria o patrono da feira. Num âmbito que se poderia considerar profissional, tais decisões são coletivas, mediadas por escritores, intelectuais, bibliófilos, pesquisadores do campo literário e gente que entende do assunto, além de levarem em conta critérios bem específicos: a qualidade da obra do patrono, a homenagem por uma vida de dedicação à arte da escrita, a reverência pela construção de um pensamento estético influente para uma cidade, uma região ou um país. Estes critérios soam bastante adequados ao escritor José Clemente Pozenatto, que, de forma deselegante e rasteira, passou a figurar no debate como uma carta fora do baralho, como alguém que era “inviável” por não ter apelo na mídia, não ter uma imagem comercializável e não apresentar-se no Domingão do Faustão.

A celeuma está armada. Quem perde com isso é a própria Feira do Livro de Bento Gonçalves, que dá sinais de ter se tornado refém da indústria do espetáculo. Paradoxalmente, a 27ª Feira do Livro de Bento Gonçalves confirma que a imagem vale mais do que a palavra.

Jaguarão-RS, 23/04/2012

sábado, 29 de outubro de 2011

Ir além do ensaio


Obra de Voluspa Jarpa integrante da 8ª Bienal do Mercosul


Sob o slogan “Ensaios de Geopoética”, a Bienal de Artes Visuais do Mercosul retorna à capital gaúcha. Desde 1997, com suas intermitências bianuais, o evento vem explorando sua posição frente ao conturbado cenário das artes visuais contemporâneas.

Junto a outras Bienais que acontecem ao redor do mundo, cada qual buscando suas estratégias de afirmação, a Bienal do Mercosul – com suas intenções quase proféticas –, parece criar uma atmosfera de revelação estética que preenche vazios, costura memórias dissociadas, constrói significados e anuncia que já não somos uma soma de gentios colonizados. Sim, a Bienal do Mercosul traz consigo uma grandiloquência pretensiosa presente na maioria das coisas que se diz sobre a arte, este fenômeno geralmente elevado à categoria do intangível e de algo que foge à igualmente pretensiosa exatidão dos conceitos.

A arte nos ensina que é preciso ir além do ensaio, é preciso buscar a forma. E mais: é preciso que a linguagem engravide a forma, caso contrário não há arte, apenas o ensaio, o gesto, as tangências. Sem entrar nas questões implicadas nesta afirmação, sugiro que a Bienal do Mercosul carrega em si uma forma dupla: por um lado refiro-me à forma estrita e inerente à arte (mais estritamente às obras “em si”) e à sua maneira específica de comunicar e estimular diversas leituras; por outro lado, refiro-me à forma que modela a grande Mostra gaúcha no que se refere à sua aparição social. Isso quer dizer que a Bienal não é só uma ideia, um inofensivo e extravagante relâmpago cultural bianual, mas um contexto vivo onde poderosas lógicas sociais atuam de modo a revelar que a arte também pode ser compreendida como um uso.

Algumas pessoas vão a museus de arte, visitam exposições, adquirem obras em leilões, interessam-se pela leitura de biografias de artistas, financiam instituições culturais e organizam coleções particulares; outras tantas passam a vida inteira sem jamais terem contato com tais esferas culturais da sociedade. O que as divide? O que as diferencia? Por que, para algumas pessoas, a arte ocupa um lugar central em suas vidas, enquanto para outras ela não passa de mero acessório, futilidade ou algo que não desperta qualquer interesse? As disparidades e os desníveis verificados no campo da arte estão também presentes em outros campos que constituem a vida social. Isso se deve, em grande parte, às clivagens e às estratificações presentes no âmbito da vida coletiva, as quais definem modos e estilos de vida, práticas de consumo cultural, bem como articulam as facilidades ou dificuldades de ingresso nas esferas consideradas “legítimas” à assimilação dos códigos estéticos de um determinado contexto histórico.

Uma Bienal de arte não é um evento que serve apenas para “mostrar obras de arte”. Ela informa as transformações que vão ocorrendo no campo artístico num desdobramento que se ramifica para diversos campos, como o econômico, o político, o ideológico e o cultural. Dentre uma série de ações desencadeadas, modeladas ou induzidas por uma Bienal está o desenvolvimento de formas variadas de sociabilidade em seus espaços expositivos, algo que explorei mais detalhadamente numa pesquisa recente. Além disso, o evento constitui uma soma de práticas que, aparentemente, em nada vinculam-se à arte, mas que, numa leitura mais apurada, interferem profundamente no modo como nos relacionamos com ela. Isso é simples de ser compreendido, por exemplo, quando nos reportamos ao orçamento estipulado para um evento desta natureza. Um orçamento de vinte milhões de reais produziria um determinado perfil estético para a Bienal que um orçamento mais modesto não produziria. Outro exemplo: a escolha de uma equipe curatorial desencadeia um complexo processo de decisões, envoltas em vaidades pessoais, jogos de poder e manejo de influências. E isso é crucial para determinar o que vemos (e o que não vemos) numa Bienal.

A arte é também um uso. Este é um dos temores dos que investem em seu caráter transcendente e descolado da realidade, impondo-lhe a condição de refém de discursos esotéricos, dos quais só os “iniciados” podem participar. De fato, a arte é tão poliédrica e abrangente que pode encaixar-se em qualquer discurso, mas parece ter uma vinculação especial àqueles ligados aos idealismos, às mistificações e aos intelectualismos, como se apenas um grupo muito raro e especial de pessoas estivesse a ela conectado por uma determinação natural, à qual poderíamos nos referir, ironicamente, como “evolucionismo estético”. Entretanto, percebendo-a como um uso é possível verificar como são profundamente maleáveis os valores que atribuímos à arte, especialmente no contexto de uma Bienal, que, em sua aparição como evento cultural, deixa rastros do arranjo cooperativo de tarefas que fazem com que ela exista de uma forma socialmente objetiva.

Deste modo, dentre uma série de outros agenciamentos possíveis e não mencionados aqui, a Bienal tece seu fio na imbricada trama política que liga o Estado e as empresas privadas que lhe amparam financeiramente através de benefícios fiscais; oferece oportunidades de trabalho permanente ou temporário para diversos funcionários; diferencia culturalmente a cidade que a sedia; consagra artistas, constrói e destrói reputações entre agentes do campo artístico; orienta práticas de classificação de artistas e obras; amplia as possibilidades de reprodução de uma tecnologia do gosto através da ação de museógrafos e profissionais de expografia; atua na formação pedagógica do grande público, ainda considerado despreparado para este tipo de opção cultural; constitui uma alternativa de lazer para os que já enjoaram de shopping centers e jardins zoológicos; gera pautas e editoriais em veículos de mídia especializados; integra pacotes turísticos dispostos a comercializar a experiência de visitação às exposições; explora comercialmente sua marca e sua identidade, negociando-as como moeda de troca simbólica.

A arte é visivelmente permeável às ações humanas à sua volta. Não há dúvidas de que ela não é uma atividade isenta de conflitos, ingênua ou que serve apenas para cadenciar as vicissitudes de sujeitos gauches e alienados, como muitas pessoas podem pensar. Como um território da arte, a Bienal apresenta um enredo de relações construídas em âmbitos que podem não ter qualquer ligação com o mundo da arte, mas que participam da configuração de complexas forças sociais diluídas entre o que vemos e o que não vemos.

Isolada num determinado ambiente e vedada contra a infiltração dos sentidos humanos, a arte converte-se num refém silencioso. Contudo, quando presente num circuito de relações humanas como uma Bienal, ela alcança um estatuto social diferenciado, por meio do qual temos acesso a uma série de questões que lhe são subjacentes: ideologias, lutas por monopólios, desníveis de classe, representações coletivas, marcações simbólicas, confrontos políticos etc.

A conhecida sentença de Ortega Y Gasset diz que “eu sou eu e minha circunstância”. Há uma relação profunda entre o que eu penso que sou e a circunstância que me modela. Cientes de uma possível deturpação da ideia original do autor, talvez possamos aplicar a mesma conexão entre “ser” e “circunstância” para tentarmos alguma visibilidade sobre a arte, este fenômeno complexo e historicamente mutável que nos desafia. Tal orientação poderia nos mostrar que a arte estabelece uma relação umbilical com tudo que está à sua volta, mediante um jogo de distanciamentos e aproximações.

Se todos os seus sentidos estiverem bem calibrados e afinados, será possível para qualquer visitante da Bienal do Mercosul perceber a circunstância como um elemento importante para o entendimento das obras ali apresentadas. Vale lembrar que, para Ortega Y Gasset, a conexão é dramática e radical, pois expressa dois momentos únicos. Portanto, cabe a cada um vivenciá-la com toda a sua carga de risco e incerteza.

Publicado no Caderno de Cultura do Jornal Zero Hora, em 29/10/2011




terça-feira, 21 de junho de 2011

Intelectuais da bola

O pensador - Auguste Rodin

Buscar uma justificativa para a mais recente peripécia da ABL – Academia Brasileira de Letras – é, forçosamente, cair no escracho. Há algo de errado com o tradicional chá da confraria. Das duas uma: a erva usada na infusão está com a data de validade vencida ou andam trocando-a por doses generosas de uma pinga qualquer.

Em recente ato laudatório na sede da ABL, o jogador de futebol Ronaldinho Gaúcho foi homenageado com uma das mais altas comendas da instituição, a Medalha Machado de Assis, honraria que confere destaque no campo da cultura e da criação artística. Em função da homenagem, o tom de deboche que circulou pela mídia é plenamente justificado, o que pode ser visto em alguns comentários que circularam, por exemplo, no Twiter: “Será que o troféu bola de ouro será dado a um escritor da Academia?”; “Está aí uma medalha que nem o Rei Pelé conseguiu!”; “Agora só falta a ABL homenagear o Tiririca”.

As críticas e ironias não surgem à toa. A ABL – lugar de mortos, imortais e mortos-vivos –, expôs o flanco ao referendar que a prática do futebol por um atleta esteja no mesmo nível de contribuição à cultura nacional que a obra de um Machado de Assis, de um Guimarães Rosa e de uma Clarice Lispector. Pois é exatamente isso que a homenagem a Ronaldinho Gaúcho produz como significância coletiva, a ideia de que, neste país, não existem mais fronteiras para nada, pois até semianalfabetos (desde que milionários e com projeção na mídia) são elevados à categoria de ícones da memória cultural nacional.

Não quero desmerecer o trabalho do jogador Ronaldinho Gaúcho. Dizem os entendidos no assunto que ele é brilhante, um jogador inigualável. O que está em questão aqui não é a crítica à qualidade esportiva do jogador, mas à atitude desastrada da ABL em conceder a honraria a uma pessoa que, em nada, absolutamente nada, foi, é ou será decisiva para compreendermos os rumos de nossa cultura e de nossa formação sócio-histórica, coisas que alguns escritores (os grandes) fazem com virtuosismo ímpar.

O momento que vivemos é único. Temos um ex-presidente que admitiu publicamente que nunca leu um livro na vida e, mesmo assim, foi agraciado com o título de Doutor Honoris Causa por uma universidade portuguesa. Temos prostitutas que escrevem livros sobre suas intimidades sexuais e viram celebridade nas telas do cinema. Temos artistas de circo que se candidatam a cargos públicos e, para a perplexidade geral, acabam por conseguir votações estonteantes. Temos também jogadores de futebol, os quais, junto às suas coleções de carros importados, ternos Armani e Marias-chuteiras, ostentam uma medalha que, para muitos escritores, pensadores e intelectuais, representa o coroamento de uma vida inteira dedicada ao estudo, à reflexão, ao aprendizado de línguas e ao aprimoramento estético de suas obras.


"O grande público nem sabe
que a ABL existe."


Não sei ao certo qual a intenção da ABL com tal homenagem, tampouco sei se esta prática de outorgar medalhas e honrarias faz parte de procedimentos habituais da instituição em questão. O fato é que a ABL sempre foi vista como uma confraria fechada, autocontida e elitista. Talvez o apelo popular de um jogador de futebol estaria no centro de uma campanha de marketing para melhorar a imagem da instituição, torná-la menos morta e mais viva. O próximo passo poderia ser um desconto de meia-entrada para estudantes e idosos no chá da tarde.

De qualquer maneira, a fúria opinativa que se criou em torno da homenagem a Ronaldinho Gaúcho não está isenta de críticas. Se a ABL tivesse outorgado uma homenagem a um cientista ou a um pensador brasileiro, que tipo de comentários isso teria gerado? Provavelmente nenhum, porque discutir questões qualitativas e relevantes não está na pauta cultural do brasileiro. A ABL só surge como mote de um debate público porque, desta vez, seus atos envolveram a figura de um jogador de futebol. No mais, o grande público nem sabe que a ABL existe, e isso é lamentável, já que deveríamos guardar um amor profundo por aquelas pessoas que, pelo viés da sabedoria que alcançaram em vida, nos ensinam a construir, ainda hoje, nossa identidade como brasileiros.

Muitos poderão dizer que o futebol também faz parte do processo de construção de uma identidade nacional. Não lhes tiro a razão. Pensar o Brasil, atualmente, é pensá-lo também com as contribuições do futebol, mas não APENAS a partir do futebol. Neste sentido, o essencialismo é sempre nocivo, pois cria uma cortina de fumaça que impede que nos aproximemos do discernimento.

Para celebrar as virtudes e qualidades de um atleta, existem inúmeros canais e pessoas especialmente constituídos para tal finalidade: Olimpíadas, Copa do Mundo, Campeonatos Nacionais. No âmbito destes espaços, o atleta de qualquer modalidade pode experimentar o êxtase da vitória e o amargor da derrota, amargor que o poeta Mário Quintana deve ter experimentado ao ser rejeitado como imortal pela mesma ABL que hoje homenageia Ronaldinho Gaúcho.

Está feita a escolha. A ABL trocou a cabeça pelo pé. O Brasil, como um todo, já fez isso há mais tempo. Estejam atentos nossos imortais fardados com mais esta demonstração de displicência e caduquice, pois está a um passo o dia em que o chazinho na sala neoclássica será substituído por uma farofa na arquibancada.

Clóvis Da Rolt - Jaguarão/RS, 21/06/2011

segunda-feira, 30 de maio de 2011

O exército do funk


Sophie Calle - O aniversário
Um vídeo publicado no Youtube correu os noticiários nesta semana que passou. Realizado no interior de um quartel na cidade de Dom Pedrito, no Rio Grande do Sul, o vídeo mostra imagens de um grupo de soldados num momento de desconcertante alegria ao interpretarem o hino nacional brasileiro com uma batida funk. Foi o que bastou para que os conservadores e defensores do militarismo esbravejassem contra a maldição do mundo contemporâneo, no qual a Pátria Amada Idolatrada perdeu lugar para as Cachorras e Preparadas!

O que parece ser, logo nos primeiros segundos do vídeo, apenas mais uma demonstração da habilidade militar em inculcar a ordem e a padronização do comportamento, de repente torna-se uma antítese surpreendente desta concepção, já que os soldados em questão, tomados pela mixagem funk do hino nacional, começam a requebrar-se por meio dos movimentos nada contidos inspirados nos bailes cariocas. Uma vergonha nacional, dizem os bastiões do conservadorismo! Uma ofensa à Pátria, dizem os nacionalistas reacionários! Uma conduta lastimável, dizem os detentores das altas patentes militares!

A reação negativa ao vídeo dos soldados não pode se encarada como novidade. Já era esperada. Contudo, ela não pode ser encarada como a reação “correta” somente pelo fato de que os protagonistas do vídeo são soldados ou porque o hino é uma das representações máximas da brasilidade, do “ser brasileiro”. Afirmo que há, neste vídeo, um respeito e uma admiração pelo Brasil muito maiores do que há quando, por exemplo, veículos militares abarrotados de soldados transitam pelas ruas em seus exercícios rotineiros. O Brasil não está na postura rígida, na cara amarrada, no peito estufado e no brilho dos coturnos. Não combinamos com isso.

Eu vejo o Brasil na alegria, na dança, na traquinagem, nos pequenos desvios éticos (e nos grandes, é claro, quando se trata do campo político partidário). Esses soldados que aparecem no vídeo são mais representativos de nosso Brasil atual do que a própria letra do hino nacional. Não quero dizer, com isso, que devemos ver o Brasil apenas sob esta ótica. Esta é a minha visão e não estou aqui para angariar adeptos. O que você, leitor, escolhe? Ser um defensor da manutenção das ordens arcaicas, dos padrões mortificadores e das estruturas de um poder verticalizador? Ou ser um simpatizante do bom humor, da musicalidade pulsante de Eros e das pequenas transgressões que quebram a argamassa da ordem consensual?


"Esqueceram-se os conservadores
de que o homem já vem ao mundo
sabendo como matar?"


Não tenho dúvidas de que, no futuro, a performance do hino-funk fará os soldados que aparecem no vídeo lembrarem-se de seu tempo de formação militar com muito mais intensidade do que quando rastejavam sobre poças de lama, submetidos à tortura psicológica e ao aprendizado da técnica da morte. Infelizmente, as instituições militares ainda persistem porque precisamos de técnicos que aprendam a matar com requinte e em grande escala em caso de necessidade. O medo dos conservadores que estão condenando o vídeo está pautado no discurso ultrapassado da inversão dos valores, da anormalidade do mundo atual e da perda da autoridade das instituições que atravessaram a modernidade.

Os paladinos do conservadorismo temem que todo o campo simbólico construído em torno do militarismo (a força, a virilidade, a masculinidade, o civismo, a ideia da Nação, etc.) seja quebrado sem que nada surja em seu lugar. Vale lembrar que esse pensamento é o que alimenta as tradições, as heranças, os espólios familiares e os modelos educativos reprodutores. Temem também que, no caso de uma convulsão bélica internacional, nossos soldados não saibam pegar numa arma e defender o país, simplesmente porque dançaram funk por alguns segundos. Esqueceram-se os conservadores de que o homem já vem ao mundo sabendo como matar?

O que o vídeo nos mostra é que o ser humano representa, a todo momento, um mundo para si e para o grupo do qual faz parte. Não há um modo correto de ser, de viver. Há apenas a existência e a vida. O que fazemos com ambas é determinado por situações muito complexas, impossíveis de serem moldadas com base na diversidade de opiniões que possamos ter acerca delas. Talvez o vídeo seja apenas isso, um grupo de jovens de vinte e poucos anos querendo se divertir um pouco. Que mal há nisso? O problema é a farda? A corrupção do hino? Não é melhor usar a farda para promover a alegria do que para promover a morte?

Sinto-me, sim, ferido e ultrajado como brasileiro ao ver que Ministros de Estado, Senadores e Deputados enriquecem ilicitamente, aumentando seus patrimônios pessoais através do uso da estrutura pública e sem prestar qualquer esclarecimento à Receita Federal. Causa-me vergonha ser brasileiro quando vejo os bolsões de miséria ao redor das nossas grandes cidades. Não me reconheço como brasileiro sempre que percebo o quanto somos um país desigual e cínico. É um equívoco comparar uma pequena trangressão simbólica (mesmo que seja com um símbolo nacional) com outras questões que ameaçam nossa existência como Nação, como se seus impactos éticos, patrióticos e sociais fossem iguais.

Se estes soldados forem expulsos da corporação (o que é bem provável que aconteça), sugiro a eles montar um grupo de funk – o Exército do funk. Talvez eles até consigam se apresentar, sem a farda, em festas populares, onde muitos milicos encontram suas “cachorras” para a perpetuação da espécie.

Clóvis Da Rolt - Jaguarão/RS, 30/05/2011

sexta-feira, 8 de abril de 2011

O refinamento das armas


2001: Uma odisseia no espaço, de Stanley Kubrick

Um espectro de morbidez ronda a mídia brasileira. Nos últimos dois dias, os veículos de comunicação de massa não fazem outra coisa senão remoer fragmentos desconexos em busca de uma explicação para o extermínio de doze crianças numa escola pública do Rio de Janeiro. Em sua coleção de catástrofes sociais, o Brasil pobre e terceiromundista ainda não contabilizava os rituais destrutivos e egoístas dos psicopatas que, após escreverem uma carta pedindo o perdão de Deus, disparam armas de fogo no interior de instituições escolares como uma forma desesperada de expiação ao demonstrarem que o mundo lhes é inadequado.

O massacre que ora repercute, envolto numa aura de novidade para os padrões brasileiros, já virou modalidade criminalística nos Estados Unidos, merecendo até departamentos especializados junto à polícia de lá. O país da civilidade, da concentração econômica mundial, da gigantização industrial e das imposições culturais registra os maiores índices de extermínio público executado por psicopatas, delinquentes e outsiders. Será essa uma faceta sintomática do desenvolvimentismo massivo que se sobrepõe às pessoas, tornando-as meros joguetes nas mãos de um sistema excludente e gerador de autômatos?

Há dois dias os telejornais e outros programas televisivos não falam de outra coisa que não seja a ocorrência criminal na escola do Rio. A mídia está satisfeita, tem matéria-prima para fechar pautas e editoriais sem necessitar de muito esforço, tudo embasado na palavra ornamentada, nas fantasmagorias da notícia, nos julgamentos fáceis, nas explicações sem conteúdo, nos debates infrutíferos e nas ponderações descabidas.

Um exemplo desta postura é a afirmação de alguns jornalistas, que alegam que o fato de o autor do massacre ter deixado a barba crescer “além do normal” é um indício de que seu comportamento estava alterado. Como se vê, uma tentativa absurdamente reducionista de explicar o que aconteceu, como aconteceu e mediante que influências aconteceu. Obviamente, a barba comprida foi trazida ao debate midiático de modo a propor uma possível ligação entre o criminoso e as correntes islâmicas fundamentalistas. Sendo assim, por uma aproximação lógica – pautada na matriz dos pré-julgamentos de grande parte da imprensa –, o Papai-Noel deve ser malhado em praça pública como se faz com o Judas das festas populares, já que Osama Bin Laden pode aparecer neste fim de ano, vestido de vermelho, em alguma festa familiar, com sua temível barba inspiradora do mal.

Outro exemplo estapafúrdio na busca das causas para o massacre é a hipótese de que o autor dos disparos era um sujeito que passava muito tempo em frente ao computador e tinha poucos amigos. Mais uma vez, por uma dedução lógica, podemos considerar que grande parte dos adolescentes de hoje são potenciais psicopatas, já que as sociabilidades virtuais do mundo contemporâneo são uma realidade que fala por si só. Eu mesmo, na condição de um profissional da educação, passo muitas horas do meu dia em frente ao computador, planejando aulas, fazendo buscas por livros, encaminhando burocracias universitárias, escrevendo minha tese, fazendo compras, movimentando a conta bancária, conversando com amigos. Isso faz de mim um potencial psicopata? Isso indica que posso abrir fogo contra os alunos de uma escola?

Precipitadamente, os veículos de mídia tomam certas características formais das condutas humanas para, a partir delas, criar julgamentos universais, especialmente se estes julgamentos renderem algum tipo de explicação momentânea, que é o que, de fato, lhes interessa. Quanto antes o culpado for apontado, melhor. Quanto antes for revelada a topografia comportamental do acusado, melhor. Quanto antes for formulada a ideia de que a “justiça foi feita”, melhor. Através da prática da precipitação e do ornamento, a grande mídia encontra sua razão de ser.

Apresentadores televisivos esbravejam em frente às câmeras com seus olhares tensos e seu arsenal de frases decoradas para causar impacto. Na condição de arautos da ordem pública, cobram mais atuação da polícia, exigem maior presença do Estado nas ações de coibição ao crime, clamam por uma justiça que sequer pode ser pensada fora das relações humanas, apelam a Deus, à moral, aos valores. Juntam, em torno de si, tantas variáveis e possibilidades de acesso ao mundo da vida social humana, que acabam vítimas de sua própria grandiloquência. Não teria o jovem autor do massacre se espelhado nessas figuras públicas, da grande mídia, para chegar à conclusão de que o mundo é um grande estratagema da linguagem, um caos fulgurante, uma batalha animalesca em busca de posições sociais e visibilidade? Vale a pena viver num mundo assim? Poderia o criminoso ter feito a si mesmo essa pergunta?

No afã de oferecer respostas – antes mesmo de averiguar a trama complexa dos impulsos, símbolos, influências, expectativas e condicionamentos que revelam quem fomos, quem somos e quem podemos ser –, esbarramos na retórica, nas avaliações circunstanciais, na redução imediatista que pareça mais conveniente. Doze crianças morreram. É o único fato de que dispomos. A dor das famílias não pode ser anulada, ainda que uma resposta possa surgir diante do furacão das suposições.

Ninguém nos informa que, ao virmos para o mundo, teremos que lidar com o sofrimento. Mas ele surge, arrebatador e avassalador, como um registro vital da nossa espécie. Kubrick sintetizou magistralmente essa condição paradigmática da vida humana em sua obra 2001: Uma odisseia no espaço. A cena em que o bípede peludo ergue um osso aos céus, dando a ele um significado destrutivo e poderoso, mostra que, a partir daí, a docilidade e a paz não seriam mais possíveis para nós. Seguimos sendo aquele mesmo bípede peludo apresentado esteticamente no filme de Kubrick. Mudamos apenas o refinamento das armas.

Clóvis Da Rolt, Jaguarão-RS, 08/04/2011

quinta-feira, 7 de abril de 2011

O homem é um disfarce


O dançarino Kazuo Ohno
O homem é um disfarce, um ser de muitas peles. Também é um ser de muitas línguas, já que fala, intermitentemente, alternando suas várias camadas, a da verdade e a da mentira, a da pancada e a do olho roxo. Sabedor de que a vida sem disfarces seria algo insuportável, o homem aprende a ver em seu semelhante apenas os disfarces que igualmente construiu para si.

Feito um holograma, é preciso olhar para o outro com manobras visuais, procurando o foco, o ajuste capaz de revelar uma figura completa. E quando a figura foi construída à nossa frente, ela surge como algo que é apenas uma circunstância, tendo em vista que a imagem pode ser desconstruída com um simples piscar de olhos. O que foi, já não é. A memória também conta suas vítimas.

A compreensão deste quadro não é imediata. Fomos construídos assim, desde tempos remotos, através das escolhas que diversos grupos sociais fizeram antes de nós. Poderíamos ter trilhado caminhos diferentes, menos áridos, mais sintonizados com uma vida leve e naturalmente feliz. Mas somos humanos, e isso quer dizer que somos fascinados pelo caminho mais difícil, o que tem mais pedras, em cujo percurso haja mais cadáveres espalhados. O homem é um disfarce. Em lugar nenhum está de corpo inteiro. Contar os cinco dedos de uma mão é uma tolice: os cinco dedos, juntos, nunca fecham tal soma. A armadura forte e polida pode até causar impacto, mas estará o cavaleiro em seu interior?

Se herdamos muitos símbolos, arquétipos e imaginários, também vamos apagando, lentamente, tantos outros. A incompletude humana é tão grande que precisamos de várias peles para nos lembrarmos de que, neste exato momento, não somos nem os melhores nem os piores, somos apenas aquilo que as urgências determinam, que as leis não cumpridas ameaçam, que o armamento pesado do mundo estoura, que os venenos burocráticos inoculam. As várias peles querem unir-se para ser uma só. Mas é impossível. O vento nos leva – e a nossos disfarces – para assentar em diversas geografias. Onde estamos agora?

Em tempos pretéritos, o cadafalso foi tomado como uma ferramenta de justiça. O extermínio da vida através de um ritual público já foi considerado modelo de civilidade e de correção moral. Mas que justiça ele fez? Em nome de quem? Certamente, seria mais simples admitir que partimos do nada rumo ao nada e que, neste intervalo, somos envolvidos por disputas, discórdia, ilusões, ganância e egoísmo que nos impedem de perceber que não seremos nós os eleitos para completar o projeto cósmico da vida sobre a Terra. Somos apenas mais um punhado de ossos e emoções tatuando a história provisoriamente, sem a mínima noção dos resultados que nossos disfarces produzirão.

O homem é um disfarce, um quebra-cabeça sem encaixes. É mais fácil repelir do que unir. Por traz do jovem que, nesta manhã, abriu fogo contra os alunos de uma escola no Rio de Janeiro, há a humanidade toda, completa, pesada. Todos nós matamos aquelas crianças. Se nas virtudes, nas realizações positivas, nos louros da vitória, no amor e na paz mundial estão colocadas algumas aspirações que dizem respeito à humanidade como um todo, no revés destas aspirações também podemos buscar interpretações sobre o homem.

Fugir dos disfarces, fingir que eles não existem e negligenciá-los como coisa menor, pode conduzir a desvios ilusórios e reduções fáceis. Sou falado, sou pensado, sou vivido, sou ouvido, sou construído sem a minha permissão. Meus disfarces fazem com que o melhor de mim seja apenas uma hipótese.

Clóvis Da Rolt, Jaguarão-RS, 07/04/2011





 

quinta-feira, 31 de março de 2011

O golpe do samurai

Obra de Louise Bourgeois

Quando algumas pessoas dizem que o mundo não é mais o mesmo, certamente tomam como referências comparativas um emaranhado de situações e experiências que, de algum modo, ajudaram a forjar a imagem de uma realidade estática e previsível, da qual, nos últimos tempos, nos afastamos mais e mais.

Bauman definiu imageticamente este novo mundo ao enquadrá-lo num universo líquido, de seres e lógicas escorregadios, maleáveis, fracionados como as gotas de um fármaco que pode ser letal se a dose for indevida. Vivemos num mundo de overdoses, de elevações ao quadrado, de temperos exagerados e diversas formas de saturação. Como se um controle remoto pudesse nos programar, estamos todos operando no nível máximo, à beira de um colapso.

A crítica sempre direcionada aos fanáticos que aderem às seitas que pregam o suicídio coletivo precisa, a partir de agora, ser reorientada. Nossa realidade – este mundo que não é mais o mesmo – tem revelado o mesmo poder, em níveis massificados, de eliminar pessoas através da crença cega e da redução das complexidades a um ato extremo. Como se não bastasse, também cultuamos o banal, investimos em frivolidades e nos vitimizamos para podermos nos entender numa linguagem comum.

As seitas perderam o sentido da redenção; elas não mais separam o joio do trigo na tentativa de dividirem a sociedade entre os “perdidos” e os “redimidos”. Se, antes, partíamos de uma cosmologia rumo a uma teologia, hoje resta-nos apenas a existência imediata, o ato, o momento, a forma nua, compactada. As pontes foram rompidas, não há mais nada a ser ligado. Atingimos o ponto nevrálgico da vida: não sabemos se somos a maior dádiva da natureza ou o seu maior equívoco. À maneira do fanatismo criticado e agredido por aquelas milhares de pessoas sempre tão seguras e tão certas de si, também nós estamos unidos – como uma extensa humanidade – , em prol do instante mortal, aquele instante que, simultaneamente, anula e dá sentido, constrói e destrói, desfere o golpe e faz a sutura.

O mundo nos escapou, o mundo de antes e o mundo de agora. Pouco importa se ele é líquido ou se está desmanchando no ar. Estamos inseridos no meio de alguma coisa que sequer pode ser definida. Estamos entre. Neste mundo que não é mais o mesmo, o golpe do samurai encontra apenas a resistência do ar: o fio da espada tornou-se uma abstração inofensiva. As extremidades uniram-se para conspirar. Todos matam e todos morrem. Quem é mesmo o bandido? Quem é o homem de boa índole? Quem quer confiar em mim?

Algo ficou para trás, junto às grandes retóricas, às metafísicas, aos grandes homens de ciência, aos mártires das causas nobres e aos estadistas facínoras. Sem exemplos, deixamos de ser exemplo. Para o bem ou para o mal, não seremos lembrados como o são gregos e romanos. Para o bem ou para o mal, não seremos assunto para apostilas escolares. O homem contemporâneo aprende a viver sem deixar vestígios: vive e apaga a existência, elimina o que é incômodo, corrige as imperfeições de tudo, não tolera a dor, vive simbioticamente unido ao descartável, é tão paranoico quanto um brother de reality show.

No eterno fluir do mundo, cada parede, cada cerca, cada metro quadrado construído, cada rua asfaltada e eletrificada, cada novo mapa traçado, podem ser evidências das mais nobres intenções humanas, como também podem ser as marcas do desastre que chamamos de cultura. O mundo é terrivelmente volumétrico, está em todas as direções, para onde quer que a atenção humana esteja voltada: na raiz da árvore, na bandeira a meio mastro, no barulho da serra elétrica, nos telhados de amianto. Por um instante, experimento a revelação, nem dor nem alegria, só a gratuidade do estar. Penso, como Hesse: “chegará o dia em que o último pedacinho da Goldwand terá sido ocultado por uma construção, o belo parque das termas terá se transformado em fábrica, mas eu já não viverei para ver isso.”

Clóvis Da Rolt, Jaguarão-RS, 31/03/11

domingo, 13 de fevereiro de 2011

Para ler na chuva

Obra de Michelangelo Pistoletto

Choveu todo o dia e a casa está com um ar pesado. Nos dias de chuva, sinto que as coisas ao meu redor manifestam uma presença alterada, parecem mais densas, corpóreas, como se mostrassem seu desejo de serem percebidas. Com a chuva veio a umidade, e isso quer dizer que o meu contorno está pegajoso, pois é assim que me sinto nos dias úmidos, como uma impressão digital num copo de vidro, mais ciente de que tenho um corpo que é a minha contribuição para que a humanidade tenha uma forma, da qual, por várias vezes, eu teria dado tudo para não fazer parte.

Digo isso sem qualquer constrangimento, como uma verdade íntima que eu não faço a menor questão de que seja entendida. Inúmeras vezes desejei ser um objeto, um livro, uma mesa, uma coberta. A existência é perfeita para os objetos, já que eles não pensam em si mesmos e simplesmente estão aí, deslumbrantes, sem qualquer necessidade de reivindicarem reconhecimento. Objetos não se projetam para além de si mesmos, não fazem planos, não manejam o tempo como tática de sobrevivência, são o que são, confinados em sua pacífica presença. Realizar isso que até mesmo um alfinete consegue pode ser a busca dolorosa de uma vida, busca que parece confrontar a todos nós.

Dizem que o dia perfeito é um dia ensolarado. Tenho dúvidas quanto a isso. Para mim, todos os dias são imperfeitos e transcorrem como sucessões de pequenas quedas, como as peças de um dominó meticulosamente aproximadas para comporem um espetáculo visual quando a primeira delas é derrubada. Quando nasci, caiu a primeira peça. O movimento continua. Uma após a outra as peças vão se tocando, somando as unidades de suas faces numéricas e o vazio de suas faces negras. Nem o sol nem a chuva podem alterar o ritmo contínuo do espetáculo. Qual será a última peça? Que formas o conjunto das peças já derrubadas terão desenhado? Silêncio. Mesmo que submetidas à tortura do meu inquérito desesperado, as janelas baças da sala nada dizem além do que já sabem, além do que já sei. E chove, fino e contínuo.


Quando nasci, caiu a primeira peça.


Eu deveria ocupar-me com algo que combinasse com a chuva. Cozinhar seria uma boa opção. Mas não, pensei em assistir a um filme ou talvez organizar as fotografias de uma viagem que fiz recentemente. Ler seria perfeito! Eu poderia também sair na chuva e fazer o que faria se o dia estivesse ensolarado, como se chovesse apenas para os outros e não para mim. Mas como fazer isso? Como? Eu certamente chegaria a alguns lugares e as pessoas diriam: “e essa chuva, heim?”, ou “estávamos precisando desta chuva, pois tem feito muita seca!” e, desta forma, minha autoilusão estaria arruinada.

Sem tentar ir além do que o meu conjunto de precárias circunstâncias humanas pode formular, fito a chuva através de um canto da janela , sobre cujo vidro eu passei a mão para poder ver o lado de fora. Desejo profundamente ser a chuva que despenca do céu, rasgando as nuvens e todas as sujeiras químicas que pairam acima de mim. Nem passa pela minha cabeça uma chuva limpa e revigorante, mas tão somente a aquisição de uma outra forma de queda já conhecida pelas gotas perfurantes que tocam telhados, ruas, carros e plantas.

As paredes estão frias e o ar gelatinoso. A água toma conta de tudo, do dentro e do fora, do homem e do bicho, da razão e das emoções. Seres das águas copulam em meu interior, em minha placenta de ideias destinada a integrar esta vida que tanto me fascina e que de mim tanto rouba. Tudo o que quero agora é trocar de lugar com a chuva, experimentá-la como uma forma nova, a circunstância da matéria líquida. Grudo os olhos na janela. Chove. Chove. Desde sempre fui separado de tudo.

Clóvis Da Rolt, Bento Gonçalves-RS, 13/02/11



segunda-feira, 31 de janeiro de 2011

O ponto cego no radar


Ato sem título - Obra de Élcio Rossini

Quem escreve sofre de uma grande ilusão e de uma grande obsessão. A ilusão de achar que tudo, absolutamente tudo, pode ser traduzido num texto escrito, e a obsessão de tentar realizar alguma coisa em torno da qual todos possam se reconhecer. Comigo é assim, frequentemente me vejo tentando traduzir coisas que vivo no meu cotidiano – ou mesmo vivências compactadas durante anos – em algumas linhas, num texto escrito. O resultado nunca me satisfaz. Nunca. Tudo que escrevo tem o formato de uma rede de pesca, através da qual somente alguns peixes são capturados, pois tantos outros se evadem.

O senso de pertencer a algo maior, à humanidade, ao cosmos, à sociedade global, não me tocou até hoje. Imagens globais sempre me incomodaram. São essas imagens que conduziram e estão conduzindo o homem à sua mortificação lenta e duradoura: os impérios, as invasões, as religiosidades, as ciências. São muitas as formas que a ideia do “todo” toma para mascarar seu parasitismo. Assim, é comum para quem escreve – talvez por uma presunção inocente – desejar conexões, reações em cadeia, abrangências, isto é, desejar ver o mundo representado num modesto conjunto de palavras que, recortadas do texto e livres de sintaxe, nada mais são do que palavras, frágeis corpos disputando espaço no vagão lotado da linguagem.

Hoje, durante a manhã, eu estava numa fila de espera para a realização de uma radiografia, coisa simples, milhões de pessoas fazem isso diariamente. Era só entrar no hospital, pegar a senha, inteirar-me dos procedimentos e pronto! A manhã perfeita, conforme o planejado! Mas, naquele momento, as ilusões e as obsessões de quem escreve ficaram evidentes para mim. Naquela sala de espera, entre pessoas desconhecidas, com seus olhares tramando vazios e seus ossos reivindicando uma existência para além das coisas invisíveis, fui tomado pela sensação de que algo inexplicável envolvia aquilo tudo, aquela sequência de eventos que aconteciam (ou simplesmente estavam lá), orquestrados pelos números do painel eletrônico que chamava os pacientes, por uma televisão que apresentava um programa de culinária, por uma pessoa que me cumprimentou porque me conhecia, pela luz vermelha que indicava que o local demandava cuidados com a radioatividade.


Falhei profundamente no meu intento e aqui estou,
feito uma vítima do ponto cego no radar.


Fiquei com vontade de escrever algo, sintetizar, poetizar a lógica, porém, imediatamente, forcei toda a minha percepção a encarar o ambiente exatamente como aquilo que ele era: uma sala com algumas pessoas esperando para fazer radiografias. Parecia-me que, então, o “todo” era exatamente uma questão de circunstância, um modo de operar, e que não havia nada interessante naquele meu pequeno todo que merecesse ser comunicado. E Wall Street? E Davos? E as vítimas da enchente no Rio de Janeiro? E o paredão do BBB? Em que lugar ficariam as outras totalidades frente ao meu reino do absurdo?

Tentei bloquear as entradas e as saídas, encurralei o pensamento de modo a deixá-lo cativo da falta de referências, isolado do exuberante jogo que trama os sentidos das coisas. Falhei profundamente no meu intento e aqui estou, feito uma vítima do ponto cego no radar. Pensar por mim, viver por mim, procurar-me na mesma linguagem que vale para os outros e para mim, é algo que faço com grande esforço. Porque a linguagem é um tipo de estratégia de perseguição. Quando escrevo, pingando o pensamento entre ruas estreitas e becos escuros, na cola do assaltante que de mim roubou algumas posses e algumas certezas, vou tentando reaver o que foi perdido, pacientemente, uma pista aqui, um vestígio ali, uma impressão digital acolá. Como se o mundo fosse só meu e todas as experiências de todas as demais pessoas passassem, necessariamente, pela minha experiência, vou articulando palavras que tentem dizer o que ninguém viu ou viveu. De alguma forma, cada sala de espera é o lugar de todos e de ninguém, o lugar do encontro de totalidades absurdas com absurdos totais.

Clóvis Da Rolt, Bento Gonçalves-RS, 31/01/11

sábado, 22 de janeiro de 2011

Regar quintais, pulverizar plantações

Vincent Van Gogh - Plantação de oliveiras

Com a transferência da Vinícola Salton para o distrito de Tuiuty, há cerca de sete anos, a antiga sede industrial da empresa, no centro de Bento Gonçalves, passou a ser uma espécie de necrópole, na qual coabitam cimento, tijolos, vigas, aço, símbolos culturais, ações jurídicas e interesses imobiliários. Este emaranhado de elementos pode, sem dúvida alguma, levar qualquer pessoa bem intencionada a relativizar profundamente qualquer discussão que se fizer em torno da noção de “patrimônio histórico”, já que este assunto precisa ser considerado a partir de diferentes âmbitos enunciativos. Porém, em nossa cidade, este caráter relativista em torno da discussão nunca existiu e vai continuar inexistente, devido à falta de interlocução entre as esferas envolvidas nas decisões relativas à preservação patrimonial.

A demolição de parte da antiga sede da Vinícola Salton fez a discussão em torno do patrimônio histórico ressurgir e trazer consigo, como de praxe, o olhar unilateral de quem dela participa mais ativamente. Um misto de perplexidade contra as ações legalistas que limitam a plena fruição da propriedade privada por parte dos legítimos proprietários do conjunto de imóveis, aliado ao clamor romanticista dos preservacionistas, à manutenção de uma suposta “ordem cultural” por parte dos memorialistas, à ideia de que o mundo se desgasta e perde sua razão de ser por parte dos historicistas, à inexpressividade de contribuições por parte do Poder Público (e de suas Secretarias especializadas em evadir-se de tudo), à lógica econômico-mecanicista do campo imobiliário, às evocação turísticas que monumentalizam o banal e banalizam o monumental através de reducionismos crassos e da criação de fetiches da experiência e, por fim, à imposição de imagens estereotipadas sobre o que se compreende por “patrimônio histórico” sobre o grande público, tudo isso, conjuntamente posto em discussão, sinaliza apenas o ponto de partida para o que quer que se diga sobre o patrimônio histórico. Assim, não é necessário muito esforço para constatarmos que, em Bento Gonçalves, uma discussão desta natureza nunca aconteceu. 

Patrimônio é algo que nunca foi discutido com seriedade em nossa cidade. E isso, dentre uma série de outros possíveis motivos, é uma grave falha de todas as pessoas que vêm a público e manifestam-se como proprietárias de determinados campos do saber, simplesmente porque conseguem agregar em torno de si alguns partidários de suas ideias parcialistas e impregnadas de vaidades pessoais. É deveras estranho (ou, talvez, perfeitamente explicável) que, no âmbito da cidade de Bento Gonçalves, as decisões tomadas em torno da esfera do patrimônio histórico sejam levadas a cabo sem a mínima consideração sobre a complexidade do assunto, sem o debate coletivo que é quem reduz, ainda que minimamente, a precariedade conceitual com a qual julgamos, presunçosamente, conhecer o mundo na sua integridade e no seu caráter de revelação plena.

Um exemplo claro desta postura pouco profissional foi a declaração de um integrante do COMPAHC – Conselho Municipal do Patrimônio Histórico e Cultural de Bento Gonçalves, que, em entrevista, alegou que “nós, do Conselho Municipal do Patrimônio, somos quem mais entende de patrimônio histórico aqui no município.” Pura soberba. É por este e por outros motivos que o debate inexiste em Bento Gonçalves, pois suas regras já estão, de antemão, colocadas: cada um fala do alto da torre do seu castelo de certezas. Quem vai contestar o que diz o COMPAHC, já que ele é o detentor da verdade suprema sobre o patrimônio? Quem vai contestar o dono da Vinícola Salton? Quem submete o IPURB – Instituto de Pesquisa e Planejamento Urbano – à mínima flexibilidade sobre o tema? O que deferem os Senhores Juízes de Direito não pode ser contestado? As imagens dos romanticistas não podem ser desconstruídas ou reorganizadas com alguns argumentos? E o sujeito anônimo que nada entende sobre o tema, nunca participou, leu ou se inteirou de qualquer discussão, não tem ele o direito de se manifestar sobre aquilo que “os outros” dizem que faz parte de sua história, de sua memória e de sua identidade? E que conceitos são estes (história, memória, identidade), tão habilmente manipulados pela retórica dos guardiões da cultura local e que, a despeito da pompa com que são revestidos, podem não passar de um punhado de equívocos tão bem sintetizados pelo antropólogo Claude Lévi-Strauss, para quem os homens sempre significam algo diferente do que dizem ou fazem, e sempre dizem ou fazem algo diferente do que significam?

Sei, é uma covardia citar Lévi-Strauss. Pode parecer pedantismo acadêmico da minha parte ou apenas um recurso ilustrativo a um texto fraco que, para se garantir, precisa do enxerto de uma citação impactante. De fato, não é isso. Tenho por princípio aprender com aqueles que julgo saberem mais do que eu. Mas aqui, na Bento Gonçalves das certezas e das transparências, todos já sabem o suficiente. Não lhes interessa nada que não venha de seus próprios quintais de conceitos e preconceitos. Me divirto com isso. Enquanto uns regam quintais, outros pulverizam plantações. Estou no segundo time. Minha ignorância em relação a uma infinidade de coisas me obriga a ser assim.

A Salton centenária – dos tempos em que a vinícola funcionava no centro da cidade – deu lugar à Salton criança, à infante rebelde que decidiu mudar para adequar-se aos “novos tempos”. A criança é só alegria, estampa de um canto a outro da boca um sorriso de fazer inveja às suas concorrentes de meia-idade. Contudo, a criança deixou para trás o contragolpe do tempo. Tentou fazer-se de desentendia – jovem que é –, sem dar muita atenção ao novo mundo que se descortinava. Ela teve a desventura de ter sido, outrora, considerada uma anciã que jamais deveria morrer, sob o risco de que, com suas paredes depostas, também nós teríamos nossas estruturas subjetivas abaladas e deixaríamos, instantaneamente, de saber quem nós tínhamos sido até então.


"Enquanto uns regam quintais,
outros pulverizam plantações."


Agora que as paredes da antiga Vinícola Salton estão virando pó, compassadas pelo barulho dos motores das máquinas, a cidade corre o risco de sofrer uma amnésia coletiva. Corre o risco de ver seus cidadãos andando pelas ruas feito zumbis errantes, inconscientes de quem são, de onde vieram e para onde vão, como se o prédio da Vinícola que está sendo demolido (mesmo se continuasse em pé por mais cem anos) tivesse respostas para estes que são os mais antigos dilemas existenciais da humanidade. Tudo culpa da infante que ousou saber qual a extensão da batalha travada entre o tempo físico e o tempo cultural, em torno dos quais situa-se o discurso do patrimônio histórico. Os feridos serão muitos. Certamente, faltará vinho para induzir-lhes a inconsciência. E vinho não será um problema para a infante rebelde. Calará ele muitas bocas? Suponho que apenas o COMPAHC sairá ileso da batalha, já que ele tem as respostas sem mesmo saber quais são as perguntas. É um prodígio esse COMPAHC!

Não tenho dúvidas de que pouco será feito, a curto e médio prazo (que expressão mais estúpida: quanto tempo é curto prazo? E médio?), para o avanço qualitativo das discussões em torno do patrimônio histórico em Bento Gonçalves. O Poder Público está extremamente mal assessorado sobre esta questão. Seus órgãos, comissões e conselhos pouco fazem para tornar a questão uma pauta abrangente, já que, segundo alegam, ela tem uma relação direta com a própria noção de “pertencimento” dos cidadãos à cidade em que vivem. Todavia, o amadorismo com que o tema vem sendo conduzido em nossa cidade é de causar constrangimento a qualquer pessoa esclarecida que vê a situação “de fora”, sem um olhar localmente comprometido. O tema em questão, o do patrimônio histórico, é de uma complexidade evidente, que envolve uma discussão multidisciplinar voltada para diversos âmbitos do conhecimento humano: filosofia da história, estética, psicologia, sociologia, antropologia, direito e economia. Insistentemente, baseados apenas nas suas próprias convicções tópicas – e dando as costas às teorias, formulações, pesquisas e publicações mais atualizadas sobre o tema – os agentes envolvidos diretamente com este campo, em Bento Gonçalves, são incapazes de perceber que não existe “verdade”, “certeza” ou um ponto de vista “correto” e indiscutível sobre a questão.

Não apenas diálogo é o que falta, já que nas esferas da decisão política isso é quase uma excentricidade. Falta respeito a quem não participa dessas esferas diretamente (falo das pessoas que não estão vinculadas a partidos políticos, órgãos governamentais, esferas decisórias, etc), como eu e milhares de outras pessoas, que precisamos tolerar a forma como somos tratados, como se fôssemos incapazes de perceber as ideologias, as manipulações, os conchavos, os desmanches morais, as obscenidades opinativas, a patifaria econômica e um sem-fim de outros quesitos que nos reduzem a expectadores passivos.

Enquanto o patrimônio histórico for tratado como questão de interesse pessoal e como guerrilha particular (e é assim que ele é tratado em Bento Gonçalves), poderemos fazer o inventário e o tombamento da cidade inteira e elevá-la à condição de ícone da memória – cada grão de uva de nossos parreirais, cada casa de todas as nossas ruas, cada pedra de nossas calçadas, cada animal que habita nosso território, todos os nossos automóveis, cada prato de nossa gastronomia, cada um dos varietais produzido pela indústria vinícola local, nosso dialeto, tudo! – que ainda assim seremos um bando de desconhecidos uns para os outros. “Patrimônio” só existe quando é mutuamente reconhecido, quando é vazado na matriz do diálogo e da alteridade, quando é profundamente marcado por uma atitude hermenêutica (aquela que diz que a “verdade” é mera utopia, já que sempre emitimos juízos a partir de um “lugar”, de uma “circunstância”, mediante um determinado jogo de linguagem).

A antiga Vinícola Salton vem abaixo, é inevitável. Um clarão está surgindo onde antes, olhando de cima, podiam ser vistos telhados. Quem pode deter o tempo físico? Quem institui a validade e a pertinência do que reza o tempo cultural? Deve o “novo” ser barrado, sob o pretexto de que é o “antigo” quem define o que o ser humano é num âmbito coletivo? Que tipo de história, de memória e de identidade o “antigo” preserva e ajuda a perpetuar? A história oficial, vista de cima, da qual só os grandes participam? A memória das elites econômicas que, com seu dinheiro, poder e influência, construíram a fisionomia que a cidade tem hoje? A identidade de nossos antepassados que, absurdamente, é referenciada e reverenciada como se fosse modelo absoluto de virtude e de elevação humana?

Para concluir, há questões bem pontuais e visíveis sem grande esforço que surgem a partir da celeuma patrimonialista em Bento Gonçalves. Eis algumas delas: a) nossos paladinos do patrimônio histórico ainda precisam aprender muito; b) nossa imprensa escrita local ainda precisa evoluir muito para oferecer ao leitor uma discussão sobre este tema, de modo que ela seja esclarecedora e oportunize a reflexão; c) nossos Conselhos Municipais precisam de mais humildade, a fim de admitirem que são apenas uma parte do sistema (e não o sistema todo funcionando em modo automático); d) nossos representantes políticos precisam ser melhor assessorados; e) palestras, seminários, fóruns e encontros precisam ser organizados para uma discussão mais abrangente sobre o tema, os quais, evidentemente, devem permitir a ventilação de ideias, bem como, devem dar voz a outros segmentos e agentes sociais, ou seja, que não sejam sempre os mesmos a falar para suas audiências cativas; f) nossos legisladores, coitados, esses não têm jeito: precisam nascer de novo para entrar na discussão.

Clóvis Da Rolt, Bento Gonçalves-RS, 22/01/11





quinta-feira, 20 de janeiro de 2011

CONCURSO DE POESIA

I CONCURSO DE POESIA DO BLOG ESCAFANDRO

TEMA: O MUNDO NUM GRÃO DE UVA



“Quando da explosão do Big Bang, pairava no ar um Grão de Uva e o Verbo. O Verbo embriagou-se. Da embriaguez do Verbo surgiu a célula mater que operou a maior revolução química jamais vista pela humanidade: assim surgiu Bento Gonçalves."

Francis Bacon com Ovos



O "I Concurso de Poesia do Blog Escafandro”, em parceria com o Instituto de Pesquisas Avançadas sobre a Uva e o Vinho, o Museu Municipal do Mosto, o Comitê Nacional para Assuntos Viníferos, a Associação de Amigos do Resveratrol, a Sociedade Bentogonçalvense de Defesa da Memória do Vinho e a Igreja Mundial “Daime de Uva”, visa a estimular a produção literária que tenha como foco o tema inédito: “O mundo num grão de uva”. O Concurso será uma oportunidade única para os amantes da literatura divulgarem o seu trabalho e serem reconhecidos por sua criação patética, digo, poética.

1. Participação:

A participação no Concurso é aberta a qualquer interessado, que poderá encaminhar textos escritos em qualquer língua (viva ou morta), desde que já tenha sofrido as consequências de um pileque (devidamente documentado com fotos, hemograma, comprovante de etilômetro). Não serão aceitos textos que apresentem rimas que ofendam, degradem ou diminuam a importância da uva e do vinho no cenário cultural da cidade de Bento Gonçalves. No mais, como diz o Tim Maia, vale tudo.

2. Inscrições:

As inscrições são gratuitas e poderão ser realizadas a partir de hoje até o dia 15 de abril de 2011. Os textos devem ser encaminhados para este blog.

3. Normas e Terezas para inscrição:

O textos deverão estar adequados a este edital.

Não há limites para a extensão dos textos, tampouco diretrizes para a sua formatação. Arquivos muito “pesados” serão detectados pelo sistema de anti-spam.

As palavras “uva” e “vinho” deverão, obrigatoriamente, aparecer no texto, sob o risco de o mesmo ser desclassificado.

Textos vanguardistas, experimentalistas e de linguagem suspeita, serão desclassificados no ato de inscrição, sob o risco de ofensa à tradição e aos mais elevados valores de “nossa gente”.

4. Modalidades:

O Concurso se divide em duas modalidades:

Modalidade A: Tintos e distintos

Poderão participar desta modalidade os apreciadores de vinho tinto, descendentes legítimos de italianos de reconhecida estirpe e cuja atuação social já lhes tenha rendido prêmios, condecorações e, no mínimo, uma portaria de louvor e reconhecimento expedida pela Câmara de Vereadores.

Modalidade B: Brancos, negros, pardos e amarelos

Poderão participar desta modalidade os apreciadores de vinho branco que não se encaixarem na modalidade A.

4. Comissão Julgadora.:

As obras inscritas serão analisadas por uma equipe altamente conceituada, formada por profissionais com destacada atuação na área da literatura e das artes. Farão parte da comissão julgadora:

-a Imperatriz da Fenavinho 2011 (auxiliada por sua corte);

-dois enólogos;

-um engenheiro agrônomo com especialização em cultivo de videiras;

-um representante de cada uma das Instituições parceiras do Concurso.

Cada membro da comissão julgadora receberá como pagamento uma réplica em bronze do grão de uva que surgiu com a explosão do Big Bang, cujo original encontra-se sob forte regime de segurança junto ao SBI – Sistema Brasileiro de Inteligência.

A decisão do júri é soberana e irrecorrível.

5. Premiação:

O "I Concurso de Poesia do Blog Escafandro” premiará os vencedores na seguinte ordem de classificação:

1° lugar: Uma caixa de vinho tinto, uma caixa de geleia de uva, uma caixa de licor de uva, uma caixa de xampu à base de extrato de uva, uma caixa de suco de uva, uma caixa de pirulitos sabor uva, uma caixa de uva, um manual prático para o cultivo da uva.

2º lugar: Uma caixa de vinho tinto.

3º lugar: Uma garrafa de vinho tinto.

Os três primeiros colocados serão agraciados com um jantar com a Imperatriz da Fenavinho 2011, em cuja efeméride serão revelados os segredos da técnica de pisar a uva.

6. Resultado:

Os vencedores serão divulgados durante a realização da Fenavinho 2011, através deste blog, e terão seus nomes gravados em uma placa comemorativa a ser descerrada por autoridades locais. A placa será, posteriormente, levada à lua como garantia de preservação da memória dos vencedores, caso alguma catástrofe destrua o Planeta Terra.



terça-feira, 18 de janeiro de 2011

O dentro e o fora

O artista Guillermo Gómez-Peña
Ao pegar a correspondência de hoje, tive a exata noção da extensão de um paradoxo. Em sua chamada de capa, o Jornal Gazeta conclama os moradores da cidade a ajudar as vítimas dos desastres naturais no Rio de Janeiro. No interior de um envelope com timbre da Fenavinho 2011, uma correspondência dirigida aos artistas plásticos da cidade conclama-os a participar da pintura de um mural temático.

O paradoxo em questão pode ser assim resumido: a chamada de capa do Jornal Gazeta referencia a dimensão do “fora”, ao passo que a correspondência da Fenavinho 2011 referencia a dimensão do “dentro”. Outros rótulos, para efeito didático, também poderiam ser usados e atingiriam o mesmo resultado paradoxal: ao invés das dimensões do “dentro” e do “fora”, o paradoxo em questão poderia referendar as dimensões do “interno” e do “externo”, ou, ainda, do “autóctone” e do “alóctone”.

O paradoxo assim se explica. Num jornal de interior, voltado para uma cobertura jornalística sem qualquer interesse macroabrangente, é muito comum que, a cada nova edição, apenas tenhamos que atualizar a data em que a leitura está sendo feita, já que, no seu teor e na sua forma, a informação veiculada não produz qualquer abalo na estrutura de mundo do leitor, o qual apenas vê confirmada a sua posição num mundo estático, diante do qual ele possui “pleno” domínio.

Mas a edição de hoje do Jornal Gazeta parece quebrar essa lógica. A chamada de capa consegue o feito de levar o pensamento do leitor para outra região (geográfica e simbólica) ao sugerir que ele também pode ajudar as vítimas dos desastres no Rio de Janeiro, através de doações. Sem entrar no mérito de tais iniciativas – que podem ser apenas um reflexo das invocações da grande mídia e do despertar de uma solidariedade que, de tempos em tempos, precisa mostrar que ainda existe – o que me chamou atenção foi o fato de ter pego o jornal e, nele, não ter visto, como de praxe, os brios afirmativos do localismo que atinge qualquer jornal de pequeno porte. Fiquei surpreso ao ver que o jornal, naquele momento, estava lançando-me para fora de minha geografia. E, com isso, caracterizo a dimensão do “fora”.

A correspondência da Fenavinho 2011, por sua vez, é a síntese fiel do que se poderia chamar de dimensão do “dentro”. Trata-se de um concurso/edital que selecionará dez artistas da cidade para a pintura de um mural, cujo tema “Arte... Uva e Vinho” referenda o mais completo confinamento cultural de que somos vítimas. Já perdi a conta de quantos editais e concursos, formulados no âmbito da cidade de Bento Gonçalves, propunham como tema os manjados clichês “uva” e “vinho”, o que me faz concluir que entre artistas e enólogos não há qualquer diferença. De certo modo, tanto a postura maçante por parte dos formuladores destes concursos, quanto a rendição dos artistas à ditadura temática por eles proposta, caracterizam a manutenção de um presunçoso etnocentrismo, o qual, sem dúvida, administra fortemente as lógicas culturais locais que se espraiam por todos os setores sociais.



"As grandes obras são inadequadas,
não encontram um lugar de consenso
frente ao mundo que lhes rodeia."




Dentro destas lógicas de ação, o campo estético local se mantém sem conflitos, sem renovações, sem surpresas, embalsamado por discursos autoritários que temem a renovação, a ousadia e a quebra das estruturas estáveis do mundo. Todos se mantêm seguros no interior desta forma de organização do imaginário local, pois é ela que permite o agrupamento de pessoas diante de um mesmo propósito. Por outro lado, a total apatia estética de nossa cidade (pra não dizer morte estética, de fato) é celebrada como se fosse algo profundamente elaborado, como se fosse produto de um ideal de elevação criativa, manejado por pessoas hábeis em decifrar os enigmas da representação artística em inofensivas garrafas de vinho, em enfadonhos cachos de uvas, em deprimentes paisagens forradas de videiras, além de outros êxodos de inteligência, materializados em imagens óbvias e sem qualquer relevância artística.

Definitivamente, não é mediante a adequação que uma obra de arte ganha vigor. As grandes obras são inadequadas, não encontram um lugar de consenso frente ao mundo que lhes rodeia. Os artistas só podem ser assim reconhecidos se duvidarem de tudo e se nos fizerem duvidar de tudo. Definitivamente, não há arte sem uma revisão nos valores, sem a quebra de certas estruturas de significação, sem o golpe da criação que desbrava os caminhos para o prosseguimento desta coisa incerta que denominamos “humanidade.”

A vida se torna insuportável sem o jogo articulado entre o “dentro” e o “fora”. É essa tensão que nos faz ver mais longe, para além de nossas presunções. Tudo aquilo que tenta reduzir a relação entre o dentro e o fora deve ser visto com descartável e despropositado. O dentro, como dimensão da facticidade, do óbvio, do revelado, do conclusivo, do mastigado, precisa encontrar na dimensão do fora, da abertura, da amplitude, do inconcluso, do volátil, a sua medida de justificação provisória, medida que tem valor somente até o limite em que não produza a imbecilidade coletiva.

Clóvis Da Rolt, Bento Gonçalves-RS, 18/01/11


FICA MEU APELO PARA QUE OS ARTISTAS DA CIDADE REFLITAM:

  • PARA QUE NÃO SE DEIXEM REDUZIR EM SUA IMPORTÂNCIA E RELEVÂNCIA SOCIAL; 
  • PARA QUE NÃO SE SUBMETAM ÀS SANÇÕES IMPOSTAS POR PESSOAS, GRUPOS E INSTITUIÇÕES QUE USUSFRUEM DO TRABALHO DOS ARTISTAS PARA INCREMENTAR SEU REPERTÓRIO DE SILÊNCIOS E IDEIAS CADUCAS.
  • PARA QUE NÃO ACEITEM A ESMOLA DE R$ 400,00 (É O VALOR DO PRÊMIO PAGO PELO CONCURSO), PAGA POR UMA FEIRA QUE MOVIMENTA MILHÕES EM NEGÓCIOS;
  • PARA QUE NÃO SE DEIXEM AMORDAÇAR POR TEMAS ESTÚPIDOS E REDUTORES DA GRANDEZA SIMBÓLICA QUE SE PODE EXPLORAR EM RELAÇÃO AO MUNDO; 
  • PARA QUE NÃO SE RESIGNEM AO ÓBVIO;
  • PARA QUE NÃO PARTILHEM COM SEUS COLEGAS DE PROFISSÃO O COMODISMO DAS CERTEZAS E DA FALTA DE DESAFIOS;
  • PARA QUE NÃO JUSTIFIQUEM SUAS ATIVIDADES ( E SUA ARTE, SE FOR O CASO) EM EXPECTATIVAS SIMPLÓRIAS;
  • PARA QUE NÃO CONFIRMEM O FASTIO DE CONCURSOS QUE EM NADA PROMOVEM O CRESCIMENTO DA ATIVIDADE ARTÍSTICA NUM PLANO QUALITATIVO;
  • PARA QUE NÃO SEJAM MEROS COADJUVANTES EM RELAÇÃO A UMA ATIVIDADE QUE, AO LONGO DA HISTÓRIA, FOI OCUPADA POR PESSOAS QUE AJUDARAM A ORIENTAR OS RUMOS DO PENSAMENTO E DA INTELIGÊNCIA HUMANA;
  • PARA QUE NÃO  SE JULGUEM TÃO BONS A PONTO DE CONTINAREM A FAZER O QUE SEMPRE FIZERAM, SÓ PORQUE UM BANDO DE DESAVISADOS CHAMA ISSO DE "ARTE";

domingo, 16 de janeiro de 2011

"O adulto é triste e solitário."

Clarice Lispector

sábado, 8 de janeiro de 2011

Os monstros de lá, os monstros de cá

O baile de máscaras - Obra de Émil Nolde
A apatia política é uma das evidências mais gritantes de nossa época. Com a suposta consolidação da democracia, aliada à estabilidade momentânea da economia e aos índices ascendentes que vêm caracterizando os diversos setores da sociedade brasileira, parece que nos tornamos anêmicos e destituídos de um necessário (e sempre útil) caráter reivindicatório sobre os rumos da esfera pública nacional.

Uma imobilidade geral parece ter tomado conta do brasileiro, esta figura meio real, meio fictícia, forjada mediante a soma de um passado perturbador e um futuro ingenuamente esperançoso. Deixando de lado teorias, análises e conjunturas históricas (elas não convém neste momento, neste veículo rápido que é o blog), parece que o que nos define, na atualidade, é um modo de operar na reserva de combustível, na passividade, no contragolpe involuntário.

O otimismo ostensivo e celebratório implantado em nossas vidas, especialmente nos últimos dez anos, tem nos deixado covardes, acomodados e completamente apáticos. Diante de situações aviltantes – como o recente aumento nos salários dos deputados federais –, não se viu surgir nenhum sinal reverso, nenhuma manifestação nacionalmente relevante, nenhum indício de repúdio efetivamente prático. Também em Bento Gonçalves, o aumento no salário de vereadores, secretários e prefeito, sequer motivou algum tipo de reflexo por parte das cobaias errantes que nos tornamos.

A política é um sistema. Poucos políticos (refiro-me às pessoas que têm a política como profissão) sabem o que isso significa na prática, e dificilmente procuram saber. Mas há situações em que o sistema, que não funciona sozinho, mas respaldado por outras esferas paralelas, mostra do que é capaz. Em situações que lhe são convenientes, todo político sabe o que é o sistema, ou seja, sabe que pode usá-lo para benefício próprio. Assim, o aumento indiscutivelmente imoral e ultrajante que os deputados federais se autoconcederam, fez com o que o sistema aparecesse, mostrasse um rosto e uma forma, a forma da vergonha nacional estampada em nossas vidas intercambiáveis na sua falta de ação e de protesto.

O chamado “efeito cascata”, promovido pelo aumento nos salários dos deputados federais, motivou o despertar do sistema. Momentaneamente, todas as esferas políticas também modificaram as cifras de seus contracheques. Incompreensivelmente, estamos aceitando tudo isso. Estamos aceitando permanentemente. Aceitaremos até o ponto em que nos falte o mínimo discernimento em relação aos aspectos mais íntimos das nossas vidas, aí, então, despertaremos, como cidadãos mortos em vida.


"Os beneficiários de um cargo em comissão
funcionam como os olhos, os ouvidos e a boca
da administração em voga,
no caso de Bento Gonçalves,
o PT e suas coligações."



Circula pela internet um e-mail assinado pelo advogado Adroaldo Dal Mass, o qual é decorrência (e, de certa forma, uma continuidade) de dois textos seus anteriormente publicados em seu blog. Felizmente, este e-mail está circulando e sendo repassado numa cadeia de contatos que tem gerado algum tipo de discussão, o que já é algum progresso neste tempo de gargantas suturadas e mãos decepadas. O referido e-mail apresenta uma alternativa ao que eu e, certamente, qualquer pessoa minimamente esclarecida, considero um escarro em nossas caras, uma evidência (mais uma) de que o campo político é a maior pústula criada pela cultura humana. Sem mencionar o que poderia ser feito no âmbito de uma mobilização nacional contundente, o referido e-mail – modesto em suas intenções, mas perfeitamente executável em seus fins – conclama quem estiver interessado a participar de uma Ação Civil Pública contra o aumento, recentemente anunciado, nos salários dos funcionários que ocupam cargos em comissão (CC’s) na Prefeitura de Bento Gonçalves.

A lei 5.175, recentemente aprovada, alterou o texto da lei complementar 130, de 23 de dezembro de 2008, que previa uma incorporação de 5% nos salários dos funcionários concursados que estivessem sob o regime de CC. Com a alteração, o novo texto, respaldado pela atual administração pública que se beneficiaria dele, passou a determinar uma incorporação anual de 20% aos salários dos funcionários em cargos de comissão, até o limite de 100%. Mas não apenas os chamados CC’s incorporariam o aumento, como também os funcionários beneficiados com subsídios (prefeito, secretários e vereadores). Tudo engenhosamente armado para beneficiar a atual administração petista.

Não precisa ser muito bom em matemática para fazer um breve cálculo e verificar que, em quatro anos, um funcionário beneficiado com um cargo em comissão aumentaria em 80% o seu salário. E isso, sem qualquer justificativa plausível, sem qualquer motivo humanamente compreensível que determinasse o aumento. Ao que parece, o Prefeito Roberto Lunelli anda dando declarações que alegam que o aumento de 20% já estava na lei original (de 2008) e que seus esforços seriam para barrar o aumento de 20%, ainda que permanecessem os 5%. Na tentativa de eximir-se de uma participação direta no feito, sua “luta” (palavra que os petistas adoram), agora, é por garantir modestos 5%, o que, com seu recente aumento salarial, geraria um acréscimo de R$ 2.000 em seu salário de professor (considerando os dois anos restantes do seu mandato), para o resto da sua vida, sem contar os outros R$ 4.000 provenientes de uma possível (e até agora improvável) reeleição. A mesma lógica, com os devidos ajustes de cálculo, valeria para qualquer funcionário concursado, beneficiado por um cargo em comissão ou subsídio.

O que me parece mais arrogante neste tipo de ação política é a supervalorização com a qual nossos governantes se autodefinem. Talvez isso seja uma patologia estritamente aplicável ao campo da política, tendo em vista que jamais vi algum político sofrer de baixa autoestima, falta de autoconfiança ou qualquer tipo de insegurança que, normalmente, atingem os serem humanos comuns. Todavia, os políticos não são seres humanos comuns. Eles efetivamente acreditam que são tão bons, tão necessários e tão indispensáveis, que mereçam receber, até o fim de suas vidas, os dividendos por ocuparem um cargo que qualquer outra pessoa poderia ocupar, sobretudo no que se refere aos cargos em comissão.

Cargos em comissão não são movidos por competência profissional, titulação acadêmica, histórico de serviço à comunidade, capacidades intelectuais, perfil de liderança ou qualquer outra variável que possa ser mencionada. São cargos movidos pela falácia de todo o campo político na sua variante partidária. Os beneficiários de um cargo em comissão funcionam como os olhos, os ouvidos e a boca da administração em voga, no caso de Bento Gonçalves, o PT e suas coligações. Por que, neste caso, temos que gratificá-los até o fim de suas vidas por seus joguinhos de espionagem e suas guerrilhas partidárias? Estariam eles dispostos a aumentar, anualmente, 5% de sua capacidade de trabalho (até o limite de 100%) em benefício da cidade que sustenta seus privilégios? Que os 5% de incorporação salarial saíssem do bolso dos partidos não me pareceria uma má idéia, mas, do bolso do cidadão, que paga seus impostos e que pretende ver seu dinheiro aplicado com idoneidade, parece-me uma sujeira descarada.

Fazendo um eco ao artigo de Dal Mass, proponho que é preciso termos ciência de que toda cidade brasileira é uma filial de Brasília. O microcosmo imita o macrocosmo. Os monstros de lá são os mesmo de cá, têm cara feia, olhos grandes e dentes pontiagudos, tudo muito bem disfarçado como reza a cartilha da política. A diferença entre as duas esferas é da ordem das grandezas. Lá nos defendemos de avalanches, cá nos defendemos de um escorregão no cascalho. Porém, no fim das contas, tudo nos prejudica da mesma forma: algumas vezes um pequeno arranhão, outras vezes a morte da pouca esperança que nos resta.

Clóvis Da Rolt, Bento Gonçalves-RS, 08/01/11



quinta-feira, 30 de dezembro de 2010

Tiririca, meu voto é seu!



Eu sei, a pauta é retardatária. Tiririca foi a sensação do jornalismo brasileiro e dos críticos políticos com sua devastadora votação no último pleito para deputado federal. Nesta época, eu não estava no Brasil, embora tenha acompanhado as notícias relativas às eleições como respingos que chegavam a mim através de ligações telefônicas, televisão, jornais ou correio eletrônico. Este último, por sinal, foi o suporte mais utilizado pela comunicação de massa com o intuito de achincalhar o referido candidato e condenar-lhe por ser analfabeto, despreparado e oportunista, características que, aos olhos da crítica popularesca, pareciam nunca ter feito parte do cenário político brasileiro.

Recebi mensagens iradas, portadoras de uma capacidade destrutiva que causaria inveja ao mais insano dos homens-bomba. E tudo porque um palhaço (o substantivo, não o adjetivo) alcançou um dos patamares mais elevados da esfera política nacional. Era a prova que precisávamos de que a nossa democracia funciona, não vê cara nem coração, não repele os ímpios nem os crédulos, aceita desde aquele que mal sabe escrever o próprio nome até aquele que ocupa uma cadeira na Academia Brasileira de Letras. Somos exemplo para o mundo.

Se é verdade que a voz do povo é a voz de Deus, então Deus deu o maior berro da história política deste país. Resta, é claro, saber se a votação arrebatadora de Tiririca representa a vontade do povo, a eficácia da manipulação que associou as esferas da mídia e da política ou apenas uma brincadeira do tipo “vamos votar nele, já que ele não ganhará mesmo.” Qual um Judas malhado em praça pública, atormentado pela ira de uma horda de eleitores seguros de si e portadores da mais profunda consciência democrática, Tiririca foi a bola da vez, o ícone da bandalha nacional e do jeitinho pátropi de ser.

O que se espera dele, a partir do próximo ano, é que demonstre capacidade de ação política, habilidade no trato com as diferenças ideológicas e percepção para alavancar discussões amplas sobre temas emergentes, enfim, o que se espera de qualquer político. É pedir demais? Sim, certamente, e não porque se trata de Tiririca, mas porque se trata de política, uma das instâncias mais desacreditadas deste país, que insiste em depositar no voto todas as suas expectativas futuras, como se a democracia fosse um conceito que apenas precisamos avaliar a cada quatro anos.

"Estamos sós, no deserto,
acompanhados apenas por muitos demônios."

É por isso que eu digo: Tiririca, estou com você, assim como estou com vocês, Tarso Genro, Roseana Sarney, Geraldo Alckmin, Manuela D’Ávila, Gabriel Chalita e Antony Garotinho. Para mim, vocês são todos iguais, apenas usam figurinos e perucas de cores diferentes. E acreditem, eu dou muitas gargalhadas com vocês e de vocês. Vocês são a maior diversão deste país, uma diversão que parece ser gratuita mas custa caro aos nossos bolsos. Vocês inventaram a maior e mais convincente anedota de que precisávamos para receberem alguns aplausos como retribuição, a de que somos o “país do futuro”, este futuro que vocês insistem em destruir porque isso convém a seus próprios egos e contas bancárias.

Nossas bibliotecas estão entulhadas de livros que relatam a trajetória dos grandes homens públicos e dos personagens políticos mais marcantes do país. Estes livros costumam assinalar que os grandes homens são aqueles que já nascem como promessas de gerarem volumosas biografias, nas quais constem suas titulações acadêmicas, seus percursos formativos, suas alianças ideológicas, sua capacidade de mobilização e agenciamento popular e, é claro, seu afã de integrar o rol das figuras míticas. Tiririca veio para aniquilar, com todas as evidências e com todas as letras, a falsa ideia de seriedade que há por traz da política e das biografias políticas, algo que nunca foi novidade para nós, embora sempre tenhamos insistido – por absoluta falta de alternativa, imobilidade, descrédito ou autoanulação – que o Enviado poderia ser o próximo, ou o próximo, ou o próximo... Mas o Enviado nunca chega. Estamos sós, no deserto, acompanhados apenas por muitos demônios. Tiririca está aí para mostrar que entre ele e Juscelino Kubitschek não há qualquer diferença, já que, ao vestirem uma gravata e possuírem um gabinete com o nome na porta, todos são nivelados por meio da instantânea mística do clubinho da política.

Estou certo de que Tiririca não vai me decepcionar. Estou contando com ele para, enfim, aposentar Hobbes, Rousseau, Maquiavel, Marx, Weber, Bobbio e uma constelação de pensadores que, até hoje, não fizeram mais do que contaminar-me com suas falas torpes e suas ideias desacopladas do mundo real. Talvez o errado seja eu. Talvez eu não devesse ter investido em formação e aprimoramento intelectual, tendo em vista que, com base nessas opções, o que se ganha é o deboche alheio por querer entender um pouco mais de perto o mundo em que vivemos.

Meu voto é de Tiririca. Ele nos mostra que não é preciso falar bonito para fazer política, além de nos dar, como garantia de seu trabalho, a possibilidade de convencer seus colegas deputados com algum chiste sobre portugueses, nordestinos, loiras ou viados. Ele nos ensina que só é preciso mostrar os dentes para alcançar um dos cargos públicos mais poderosos do Brasil! Contudo, ele tem um grave defeito, talvez o mais grave de sua plataforma de governo, que é o fato de já começar sua vida política desfalcado, pois em sua boca sequer pode-se contar trinta e dois dentes.

Clóvis Da Rolt, Bento Gonçalves-RS, 30/12/10

quarta-feira, 29 de dezembro de 2010

Van Gogh e o dilema do quarto

Van Gogh - O quarto do artista em Arles.

Um amigo perguntou-me se é brega pendurar reproduções de obras de arte em casa. Ele comprou uma reprodução d’O Quarto do Artista em Arles, uma das obras de Van Gogh mais disseminadas pela indústria da cópia e, mal terminou de analisar a incrível (e virtual) textura da tinta – simulada através de lentes fotográficas cada vez mais potentes – pôs-se a pensar nas implicações morais advindas de sua aquisição de uma cópia, ao invés de um original. Alguém dificilmente me escreveria pedindo se pendurar um original de Van Gogh na parede de casa pode ser considerado brega, ainda que eu respondesse que sim, que ter um original de Van Gogh pode ser extremamente brega, se a pessoa que o ostenta for incapaz de torná-lo uma obra solene.

De cara, deixo uma dica para o meu amigo: ser brega não é um atributo da obra (quer seja o original ou a cópia), mas um preceito da conduta e do comportamento das pessoas que, de posse de uma obra (original ou cópia) poderão condená-la à mais profunda excrescência. Um exemplo desta prática de condenação é o retrato pseudoimpressionista da Baronesa Thyssen e seu cãozinho schnauzer, perturbadoramente colocado ao lado de quatro esculturas de Rodin, no hall de entrada do Museu Thyssen-Bornemisza, em Madri. A meu ver, aquele retrato da baronesa, especialmente pelo “lugar simbólico” que ocupa na entrada do museu, torna toda a coleção um tanto brega, mesmo que nela convivam preciosidades como El Greco, Francis Bacon, Hopper e dezenas de expressionistas alemães.

A pergunta continuou me instigando. Usei-a, portanto, como mote para retomar as publicações no blog, depois de um intervalo de abstinência de “senhas e logins”. O que significa ser brega? Por que perguntar a mim sobre o assunto? Por que preocupar-se com aquilo que se coloca na parede de casa, este ambiente tão confinado em uma redoma de símbolos íntimos? Meu amigo queria uma resposta. E eu, como profissional das artes (e, talvez por isso mesmo, a pessoa menos indicada a sugerir-lhe algo), senti que, naquele momento, precisaria fazer valer o meu juramento acadêmico de jamais deixar amigos sem resposta sobre aquilo que eles devem pendurar na parede de casa. Disse a ele que sim, que as reproduções de obras de arte são bregas, mas não tive como convencê-lo com argumentos muito sólidos, já que as palavras ditas através das mídias de comunicação instantânea são como infindáveis vagões cruzando linhas que se sobrepõem.

Sugeri a ele que procurasse um artista ou artesão local e adquirisse uma obra original, ou mesmo que fosse à procura de cartazes antigos que, emoldurados, deixam qualquer ambiente com mais personalidade. No Brasil, estamos cheios de opções muito mais interessantes do que as sórdidas reproduções, que, sob determinadas circunstâncias e sob determinados pontos de vista, servem como um atestado de penúria estética de quem as possui. E esse, definitivamente, não é o caso do meu amigo. O trabalho das rendeiras da Bahia, as garrafinhas com desenhos feitos de areia em Fortaleza, as xilogravuras que enobrecem a imagética dos textos contados e cantados pelo cordel de Pernambuco, os espontâneos rótulos das garrafas de pinga do Maranhão, há muito para ser explorado e levado para dentro de casa e, desta forma, deixá-la com um DNA semelhante ao do seu dono.


Costuma-se pensar na obra de arte como uma junção de corpo e alma, matéria e símbolo, objetividade e subjetividade, embora outros argumentos também sejam válidos na tentativa de responder a uma das perguntas mais antigas que a sociedade colocou a si própria: o que é arte? Na falta das polaridades antes mencionadas, o que sobra é o uso socialmente condicionado de algo que não é arte e nem almeja ser. A reprodução não quer tomar o lugar do original, não pode competir com ele, mas transforma-o, contamina-o, faz dele o fiel depositário das manifestações estéticas de uma sociedade ávida por consumir signos que expressam as mais diversas preocupações, inclusive a de tomar uma posição: ser brega ou chique.

"Numa reprodução, tudo é ilusão,
inclusive o dilema moral de ser brega
por mostrá-la na parede de casa. "

Nos consultórios médicos e jurídicos é muito comum ver reproduções de obras de arte. Suponho que estes profissionais tenham alguma disciplina voltada à decoração de interiores em seus currículos acadêmicos, pois é impressionante como conseguem reproduzir na decoração de seus escritórios e consultórios a mesma previsibilidade com que elaboram uma minuta ou diagnosticam um paciente. Evidentemente, estes profissionais não podem ser condenados por suas valorações estéticas, já que apenas perpetuam o “ethos”, a bolha de signos que faz com que eles se diferenciem das demais pessoas e dos demais profissionais. No mais, estas reproduções de obras de arte, no caso de advogados e médicos, funcionam como itens do “check list” cultural que eles precisam dominar para serem considerados criaturas superiores dentro das estruturas sociais, embora eles dificilmente saibam quem é o artista que executou a obra original, cuja cópia funciona como éter em suas salas de espera.

É compreensível que algumas pessoas admirem tanto algumas obras de arte, que queiram possuir uma cópia delas em suas casas. Não há mal algum nisso. Grande parte da arte romana é cópia, surgida numa época em que a cópia não tinha o sentido e o uso que possui hoje. Porém, sob uma análise contextual, a cópia, hoje, funciona como a virulência da fraude criativa e como sinal de debilidade do gosto artístico, instâncias historicamente problemáticas e nem por isso descartáveis. A reprodução tem o magnífico poder de substituição. Contudo, ela não cumpre fielmente o que promete oferecer, já que, para olhos acostumados com um necessário “peneiramento estético”, nela tudo é ilusão, inclusive o dilema moral de ser brega por mostrá-la na parede de casa.

Se considerarmos os rumos de nossa sociedade, marcada pela produção de criaturas vivas sob o anonimato dos bancos de células, pela massificação da notícia que pulula entre diversos canais televisivos sem nada acrescentar que já não tenha sido dito, pela falta de autenticidade ou personalidade política que dominam a esfera pública atual, bem como por uma série de outras evidências, veremos que ser chique, atualmente, pode ser ostentar uma reprodução de qualquer obra de arte na parede de casa, já que o gosto estético reflete a época da qual é resultado.

Por que meu amigo precisa de uma aprovação social para decorar sua própria casa, este espaço construído mediante constantes fricções com o mundo externo? É simples. Somos extremamente preocupados com aquilo que os outros pensam a nosso respeito, especialmente se nossa casa costuma ser frequentada e, sobretudo, se formos detentores de certos atributos distintivos que produzem o discurso (sempre equivocado) do bom gosto, como, por exemplo, se formos críticos de arte, professores universitários, investidores da bolsa de valores ou atores de novelas televisivas. Uma pessoa portadora destes atributos não pode ser brega. Por mais que isso seja um absurdo evidente, é isso que a sociedade lhe cobra. Ela é a referência do gosto tolerável.

Tentei explicar ao meu amigo que a casa dele é um problema de ordem pessoal, e que aquilo que ele coloca lá dentro não tem que passar pelo crivo dos outros. Se a reprodução d’O Quarto do Artista em Arles possui alguma faceta fortemente significativa na vida do meu amigo, então ele deve avaliar a possibilidade de fazer um furo a mais na parede, sem, contudo, esquecer-se de que toda imagem tem o poder de remeter o olhar e o julgamento para confins inimagináveis. Para alguns, ele será o sujeito cult do prédio, o cara contrastante que venera Godard mas tem um pé no populacho; para outros, a figura que convida para um jantar sem precisar apresentar-se, já que a parede de casa também produz discursos. Por fim, ele ainda poderá ser julgado como o camarada que nada entende de arte (quem entende?), mas nutre o fetiche por imagens que podem ser tanto um quase Van Gogh quanto uma Virgem Maria produzida pela indústria chinesa.

Clóvis Da Rolt, Bento Gonçalves-RS, 29/12/10